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sexta-feira, 19 de julho de 2019

Exposição

A estranha Xícara
Texto de Zé Paiva - Engenheiro mecânico (de formação) e fotógrafo profissional (por opção), publicado originalmente no blog https://zepaiva.com/2019/01/02/a-estranha-xicra/#more-5860




Está em cartaz no Instituto Ling, em Porto Alegre, a exposição de fotografias “A Estranha Xícara”, de Luiz Carlos Felizardo. “Feliz”, para os amigos, é um dos grandes fotógrafos brasileiros. Tem um currículo invejável. Foi bolsista da Comissão Fullbright na década de 80 trabalhando sob a supervisão do mestre Frederick Sommer no Arizona. Expôs em várias cidades do Brasil e do exterior e, em 2011, foi o autor homenageado no Festival de Fotografia de Porto Alegre, com uma exposição retrospectiva no Santander Cultural. Como se não bastasse, ainda é um excelente escritor. Foi colunista da Revista Aplauso por muitos anos e publicou dois livros de crônicas: Relógio de Ver e Imago (vale a pena ler os dois).

Alguns anos atrás, quando estive pela primeira vez no seu apartamento, ele me mostrou uma das primeiras experiências onde mesclava uma de suas magníficas fotografias em preto e branco (uma ruela em alguma cidade medieval européia) com um cachorrinho fotógrafo de nome Droopy. Fiquei muito surpreso com a imagem, pois quebrava todo o paradigma que eu tinha formado sobre a obra do Felizardo. Um fotógrafo na linhagem direta dos mestres da straight photography: Weston, Adams, Stieglitz e outros. Fotografou muito tempo com câmeras de formato grande, aquelas que tem um fole e que o fotógrafo se esconde sob um pano preto para visualizar a imagem. Na época ele já estava com ataxia, uma doença que compromete seriamente a coordenação motora. Então aquele era o caminho que havia escolhido para seguir seu trabalho autoral. Resumindo, não consegui ter uma opinião sobre a imagem que ele me mostrava, fiquei desconcertado.

Vários anos depois tenho o prazer de ver esse trabalho exposto na galeria do Instituto Ling. Agora faz muito sentido. Talvez porque eu tenha vindo preparado para essa nova linguagem do Feliz. Estão expostas as imagens e os objetos pessoais que deram origem às mesmas.
O título da mostra refere-se ao poema Cerâmica (1962), de Carlos Drummond de Andrade: Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara./ Sem uso, / ela nos espia do aparador. Se estiver em Porto Alegre, não deixe de ver a exposição. Feliz tem lugar de destaque no panteão dos meus mestres.



QUANDO: De 20 de novembro de 2018 a 23 de março de 2019

Segunda a sexta-feira das 10h30 às 22h;
Sábados, das 10h30 às 20h;
Domingos e feriados: fechado. Entrada franca

ONDE:  Instituto Ling

Instituto Ling (Rua João Caetano, 440 | Bairro Três Figueiras
Porto Alegre | RS) 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Carlos Drummond de Andrade

       
COLEÇÃO DE CACOS
Já não coleciono selos. O mundo me inquizila.
Tem países demais, geografias demais.
Desisto.
Nunca chegaria a ter um álbum igual ao do Dr. Grisolia,
orgulho da cidade.
E toda gente coleciona
os mesmos pedacinhos de papel.
Agora coleciono cacos de louça
quebrada há muito tempo.
Cacos novos não servem.
Brancos também não.
Têm de ser coloridos e vetustos,
desenterrados — faço questão — da horta.
Guardo uma fortuna em rosinhas estilhaçadas,
restos de flores não conhecidas.
Tão pouco: só o roxo não delineado,
o carmezim absoluto,
o verde não sabendo a que xícara serviu.
Mas eu refaço a flor por sua cor,
e é só minha tal flor, se a cor é minha
no caco de tigela.
O caco vem da terra como fruto
a me aguardar, segredo
que morta cozinheira ali depôs
para que um dia eu o desvendasse.
Lavrar, lavrar com mãos impacientes
um ouro desprezado
por todos da família. Bichos pequeninos
fogem de revolvido lar subterrâneo.
Vidros agressivos
ferem os dedos, preço
de descobrimento:
a coleção e seu sinal de sangue;
a coleção e seu risco de tétano;
a coleção que nenhum outro imita.
Escondo-a de José, por que não ria
nem jogue fora esse museu de sonho.
                                  Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Cerâmica

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
Ela nos espia do aparador.

Carlos Drummond de Andrade