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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Chávena de chá


Chávena de chá

Os factos fizeram-me gelar. Na ânsia de me aquecer, fui buscar uma chávena de chá. Diante de mim eu a observava. O meu reflexo era a única coisa que via naquele momento. De repente a minha imagem fica turva, uma lágrima derramei sobre ela. Uma após outra, até a chávena encher! Afinal só serviu para as lágrimas aparar, porque quente já não estava. Não consegui aquecer a alma! Mais uma chávena de chá por favor…

Texto publicado originalmente no Blog: World Art Friends (ttp://www.worldartfriends.com/pt/club/poesia/ch%C3%A1vena-de-ch%C3%A1)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Na xícara de Dom Pedro II


Anita Zippin

Na xícara de D. Pedro II… a tarde abençoava o diálogo entre dois verdadeiros amigos, onde a conversa pura, sincera, foi a tônica de um lugar encantador.
Na xícara de D. Pedro II… cintilavam os cristais, bem como o espelho centenário emoldurado pelas mais belas telas, todas com história especial para contar ou para guardar no lugar especial ao lado esquerdo do peito, onde os amigos fazem morada.
Na xícara de D. Pedro II… a câmera fotográfica passeava pelo denso e luxuoso tapete, a marcar o momento onde duas pessoas iriam largar as encenações necessárias à sobrevivência e iriam falar em paz, sobre a bondade, a verdade, o amor aos ancestrais, o respeito pelas expressões culturais, o encanto pela Sétima Arte.
Na xícara de D. Pedro II… o Palácio Iguaçu começava a acender as luzes para que a bandeira verde e amarela tremulasse, talvez desejando a todos os que ali permaneciam trabalhando, a melhor das inspirações em momentos de decisão.
Na xícara de D. Pedro II… um piano se calava, saudades de quem o afagava ou mesmo aplaudia aqueles que ali vinham colocar a inspiração no ar, a senhora que hoje é uma lembrança, doce lembranca que ocupa todos os espaços, desde os luxuosos móveis até o simpático jardim com plantas exóticas.
Na xícara de D. Pedro II… os amigos comemoraram o encontro, bem como a alegria de estarem a conversar ao redor de um delicioso café e “petit four” a lembrar os tradicionais cafés de Buenos Aires, não sem antes passarem, em pensamento, pela Praça 9 de Julho, pelo canhão do Clube Militar, pelos maravilhosos afrescos da Galeria Pacífico.
Na xícara de D. Pedro II… os planos culturais permaneceram em primeiro lugar, os valores morais e espirituais aprendidos na casa paterna puderam aparecer bem, uma vez que duas almas parecidas falavam do mundo, como se acreditassem em outras vidas, razão para diminuir as saudades sentidas pelos que já foram morar nas estrelas.
Na xícara de D. Pedro II… os amigos fizeram um brinde à paz mundial, sonhando um dia poder encontrar todos felizes, alegres, sadios, sabedores de que o final do século é um espelho para que os erros do passado jamais se repitam.
Na xícara de D. Pedro II… existiu o até-breve, o abraço fraterno de quem sabe diferenciar amigos de conhecidos, e com um sorriso espontâneo como se no local tivesse ímã, tal era a vontade de ali permanecer para sempre, sentindo um oásis de calmaria no meio da tormenta, ela partiu.
Na xícara de D. Pedro II… ficou a marca daquele momento invejado pelas melhores películas, como o encontro de duas essências que algum dia resolveram se encontrar e nunca mais se desprender, como se já fossem eternos conhecidos.
Na xícara de D. Pedro II… ah!, na xícara de D. Pedro II… ficou o ouro e a prata a simbolizar a sensibilidade que pode unir pessoas estranhas como se fossem os maiores parentes.
Será que ao tomar café naquela xícara, D. Pedro II conseguiu ser tão feliz?
N.A.: Dedicado ao advogado e jornalista Francisco Souto Neto,
o amigo perfeito para apreciar uma histórica xícara de café.
 E muito mais

Crônica de Anita Zippin (escritora paranaense)  publicada no Jornal Indústria & Comércio, de 24 de julho de 1998, na qual a autora revela as impressões da sua visita ao advogado e jornalista Francisco Souto Neto.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Copiando Crisjoli Fingal


A DONA DA XÍCARA


Que saudade daquela xícara de café. Café suave, com gosto de leveza. Café passado no coador de pano. Água fervente do fogão a lenha. Chaleira de ferro.


Café com sabor de campo. De roda de família grande. Café da roça, cheiro da terra. Café nobre. Nobreza de nome. Café servido a duas mãos. Café com broa, com biscoito de forno. Café com pitadas de canela. 

Café servido em xícara de porcelana. Xícara de nome também. Xícara do século passado. Guardada na cristaleira da família. Xícara de várias gerações. De uma única família. Xícara que atravessou o oceano. Veio de longe. Xícara chique que serviu senhores e doutores. Xícara de mesa farta. Única peça que sobrou do conjunto importado.



Xícara de muitas histórias. Histórias de amor, de traição. Xícara de pedido de noivado e até de casamento. Xícara do verão nas tardes belas que servia o café da roça. Xícara do inverno para aquecer o amanhecer de geadas.
 Xícara... Ah xícara! De longas datas. De muitos regalos. Inúmeras histórias... Várias mãos...




Mas, xícara de uma única dona, Sinhá D. Ana.

Texto postado por Crisjoli Fingal em seu blog "Cotidiano" em 24 de fevereiro de 2012.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Truman Capote

Sou um escritor essencialmente horizontal. Não posso pensar mais do que quando estou encostado, com um cigarro nos lábios e uma xícara de café ao alcance da mão. A xícara de café pode ser trocada por um copo de vodka, não há por que ser maníaco. Não uso máquina de escrever, redijo à mão, com lápis. Trabalho quatro horas por dia durante quatro meses por ano. Sou um estilista: me preocupa mais onde colocar uma vírgula que ganhar o prêmio Nobel.  (Truman Capote)

Truman Streckfus Persons (1924-1984), mais conhecido como Truman Capote foi um escritor, roteirista e dramaturgo norte-americano, escritor de vários contos, romances e peças teatrais reconhecidas como clássicos.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Um ritual de afeto


Meu dia só começa depois da primeira xícara de café. É a rotina, desde criança. Nunca fui de leite, menos ainda de achocolatado. Gosto mesmo é de um bom cafezinho. Sem açúcar é perfeito. Gosto de sentir aquele amargo meio doce para assim poder ver a vida e o dia com bons olhos. É nessa hora que o sol diz bom dia!
Quando era pequena, eu já contei isso por aqui, tinha um pé de café no jardim da casa onde eu nasci e cresci, bem no meio da área urbana. Era uma amostra isolada do que naquele tempo ainda cobria o horizonte no campo. E rendia aquele pé de café. 
Todo ano a gente repetia o mesmo ritual: colhia os grãos, deixava secar, depois descascava, torrava e moía. Era uma alegria só. O pó caseiro durava uns meses. Uma vez por semana, para completar o que era bom, a vó fazia pão em casa. E, claro, não sem cerimônias: depois de amassar e colocar a massa para descansar, ela separava uma bolinha e colocava em um copo com água; quando a bolinha subia é porque o pão estava bom para ir ao forno. Dali a pouco vinha aquele cheirinho inconfundível que inundava a casa. Me lembro bem disso tudo. Pão quentinho com manteiga e café caseiro fresquinho. O par perfeito. 
Estava certa que daí vinha meu vício e minha relação de afeto com o café. Mas outro dia fui pega de surpresa. O amor vem de antes. Assim do nada, em poucas palavras, a vó contou que nasceu debaixo de um pé de café. Isso lá nos idos de julho de 33. Estava frio, a bisa foi pra roça trabalhar como todo dia e entrou em trabalho de parto. Não deu tempo de voltar para casa e a vó nasceu ali mesmo, no meio do cafezal. Diz ela que foi embrulhada no pano de prato que a bisa levava enrolado na marmita. Tudo assim, muito simples, sem drama. 
Naquele tempo parto bom e humano era aquele em que a criança nascia bem, como tem que ser e do jeitinho que a vida gosta. Nada de polêmicas. A vó nasceu. E a vida gostou do que viu. Veio ao mundo com muita saúde e cheia de história para contar e se aparecer, lógico, como uma boa leonina. Foi ali que nasceu o vício e todo o afeto. 
Hoje, no dia a dia, faço meu próprio café. Mas gosto mesmo é do dela. Com açúcar e tudo e preparado no coador de pano. Para brindar seus 81 anos, completados essa semana, tomamos um bom café. E ali na varanda, sentadas nas cadeiras de corda, ela contou mais uma vez a história que eu sei de cor e salteada, de quando ela ainda era mocinha e cuidava da casa enquanto todo mundo ia para a roça e ficava ouvindo o rádio e escrevendo cartas para o radialista e sonhando em conhecê-lo: "Se fosse hoje, filha, eu teria ido..." 
Na quarta-feira, depois da xícara de café, a vida disse mais uma vez bom dia! 

Érica Zanon
Publicado em 16 de julho de 2014 na “Folha de Londrina”

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018


Não se preenche um coração com amores aos poucos. 
Ou é um por completo, ou nada. 
Coração não é xícara, não vive meio cheio, ou meio vazio.

                                                                                             Clarice Lispector

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ariano Suassuna, o gênio que tomava café "por falta de personalidade"

Ariano Suassuna era tão genial, mas tão genial que até para contar que não gostava de café o escritor paraibano tinha estilo.
O dramaturgo disse que até os 57 anos de idade, bebia café todo dia, mas por absoluta falta de personalidade. Tomava só para ficar bem com os amigos, mas nunca levou jeito.
Com o café quente, Ariano Suassuna se queimava, café frio ele achava azedo - até que um dia, perto de completar 60 anos, Ariano Suassuna descobriu o pingado, o legítimo café com leite.
Foi amor à primeira vista!
Agora que o Brasil lamenta a morte de Ariano Suassuna, vamos erguer um brinde - uma xícara de café - tocando num copo americano, pela metade de leite e a outra metade de café, como Ariano gostava. Um brinde ao pingado!  Um brinde ao gênio!
Texto retirado da Internet (autor desconhecido).

quarta-feira, 14 de junho de 2017

As xícaras na obra de Fernando Pessoa


Ontem (13 de junho) foram comemorados 129 anos do nascimento de Fernando Pessoa,  um dos mais importantes poetas da língua portuguesa.

O pequeno trecho que reproduzo aqui está no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (um dos heterônimos de Fernando Pessoa).

"Concentrei e limitei os meus desejos, para os poder requintar melhor. Para se chegar ao infinito, e julgo que se pode lá chegar, é preciso termos um porto, um só, firme, e partir de ali para Indefinido.
Hoje sou ascético na minha religião de mim. 

Uma chávena de café, um cigarro e os meus sonhos substituem bem o universo e as suas estrelas, o trabalho, o amor, até a beleza e a glória. Não tenho quase necessidade de estímulos. Ópio tenho-o eu na alma.

Que sonhos tenho? Não sei. Forcei-me por chegar a um ponto onde nem saiba já em que penso, em que sonho, o que visiono. Parece-me que sonho cada vez de mais longe, que cada vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável."

quinta-feira, 23 de março de 2017

Consistência do chá

Sempre que eu amo alguém eu faço chá. Quando eu digo que amo não quero dizer que amo, meu amor é diferente, é como o amor das pessoas que bebem chá de maracujá: calmo, quieto, e preguiçoso. Eu amo as mulheres como bebo uma xícara de chá quente: devagar e intenso. Coloca o sachê na xícara, derrama a água fervida, coloca açúcar e mexe. Isso, mexe. 
Essa é uma prosa sobre uma mulher que enquanto mexia seu chá, mexia seu corpo todo, e sobre eu, que só queria ser aquela colher. Toma cuidado pra não queimar a boca, moça, me bebe devagar. Mexe mais um pouco.
Chá de camomila a gente toma quando tá doente, e como o chinês da Tiê diz enquanto toma seu chá verde: “fica feliz que vai funcionar”. Me diz, você ta feliz assim? 
Eu devia ter escrito um poema, mas eu estava preparando um chá inglês, porque meu chá gelado de limão acabou, e pensei em quando eu quebrei uma das minhas canecas favoritas. Aquela outra moça se preocupou tanto com a minha caneca. A maioria das pessoas teriam ignorado e continuado a tomar seus chás pretos e fortes. 
O chá de hortelã é tão leve quanto porcelana. Quando chove eu tomo chá de morango, e tomo chá mate gelado para sobreviver de manhã. 
Mas a verdade é que enquanto aquela moça mexia seu chá de camomila e seu corpo, eu não pensava em ser colher, eu tava é pensando em chá gelado de pêssego. A consistência do chá se baseia em nossas vidas, meu chá ficou aguado.

LÊ FRANÇA

Crônica publicada originalmente no blog: https://cronicasamorasdohomemquevegeta.wordpress.com

terça-feira, 22 de novembro de 2016

É preciso esvaziar a xícara

"Para provar novos chás, é preciso esvaziar a xícara.”
Foi o que disse, um dos poetas que mais mexem com o meu coração,
Caio Fernando Abreu.
E é verdade!!
Não se coloca na mesma xícara, outro chá,
se aquele que antes estava, não for degustado.
Não se cabe dois sabores, em um mesmo lugar,
Mas a minha xícara, ainda está cheia de você.
Não tive coragem de te perder.
E  fui tomando pequenos goles, apenas para saciar a minha vontade,
quando  então já sabia da sua ausência.
Não o bebi todo… Não o saboreei todo,
porque preciso ainda,
da sua presença em mim.
Mas o chá de você, não está mais quentinho.
Não me aquece mais… não me dá aquele cheiro bom.
Que meu nariz, enlouquecia de prazer.
A fumaça do seu amor, já não aparece.
E eu aqui, ainda tentado te segurar nessa xícara de sonhos.
De rosas perfumadas que criamos.
Só para nos embriagarmos de amor.
Cada gole, era um beijo doce e quente.
E  hoje é tão gelado e sem sabor, que me dá arrepios.
Mas não tive coragem de te jogar fora.
O Caio está certo!!
É  preciso esvaziar a minha xícara de sonhos.
Para que eu volte a sentir, o doce sabor do amor.

Texto de Dayse Sene, publicado originalmente no blog da autora em 12 de fevereiro de 2013.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Uma chávena de café n'A Brasileira


Fachada do Café "A Brasileira", em Lisboa. 

Uma chávena de café n’A Brasileira

A minha indumentária não é apropriada ao tempo.
Tenho frio, estou cansado, sinto-me sozinho. Tenho os meus companheiros ao meu lado, mas sinto-me sozinho. Sinto um vazio dentro de mim, quase como se existisse um buraco no meu peito, deixando escapar os meus sentimentos. O único sentimento que permanece é a dor - a dor relembra-me que estou vivo, por isso deveria estar aliviado. 
Avisto um café. Aliás, avisto O café. Vou lá todas as manhãs para beber um café e para conversar.
O meu lugar habitual está livre - já se habituaram à minha presença, todos os dias, naquela mesma mesa, por isso não a ocupam. Agradeço-lhes mentalmente.
Despeço-me dos meus companheiros e sento-me. O empregado atrás do balcão vê-me e sorri, levantando o seu chapéu. Os seus lábios formam as palavras "o habitual?" e eu anuo. Segundos depois, tenho uma fumegante chávena de café.
Ouço passos e a cadeira ao meu lado é arrastada. Alguém se senta. Não preciso de olhar para saber de quem se trata. É ela.


Ophélia.
Conversamos durante algum tempo e eu chego mesmo a rabiscar-lhe um pequeno poema num guardanapo. Ela lê o que lhe escrevi e vejo as lágrimas nos cantos dos seus olhos. O seu próprio nome parece uma canção, um poema, assim que o pronuncio. Ela sorri-me, inclinando-se para mim e acariciando-me a mão. Sinto o seu perfume e sinto-me renascido. 
Ela acaba por se ir embora e o vazio regressa. Sinto apertos no peito, como se Ophélia tivesse levado o meu coração consigo.
Decido ir embora também, acenando aos meus companheiros.

Deixo o guardanapo em cima da mesa, preso debaixo da minha chávena de café, com esperança de que Ophélia regresse para o vir buscar, guardando o meu coração junto ao dela.

Fernando Pessoa
Texto publicado originalmente no site arquivopessoa.net

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Lenda da xícara quebrada

Existe uma lenda de que um guerreiro japonês, muito poderoso, que recebeu uma xícara de presente. Ele admirava essa xícara e ficava por horas admirando a beleza de cada detalhe A cada olhar nessa xícara ele relembrava as historias que ela viveu com ele. Um dia um servo dele deixou cair a xícara e ela quebrou em 5 pedaços. O mundo parou, todos os servos ficaram olhando para aquele que deixou cair a xícara e pensaram que o guerreiro japonês iria matar todos, já que o temperamento dele era muito agressivo, ele não aceitava perder, nem ter algo quebrado, porém nesse dia algo mudou.

Um convidado que viu a xícara sendo quebrada pegou os 5 pedaços e disse que iria restaurar a xícara e que ela não seria jogada fora, nem descartada, mas iria ficar mais bonita e com a essência de cada estória que o guerreiro japonês teve cada vez que tocava naquela xícara.

Passaram alguns meses e o convidado trouxe a xícara. Quando o guerreiro a viu ficou maravilhado porque ela ainda tinha toda a forma, todas as historias carregadas, todas as marcas da vida e estava nas suas mãos novamente, só que com um detalhe novo.

O visitante remendou todos os 5 pedaços com o que de mais importante existia naquela época. Ele remendou com ouro, os 5 pedaços foram ligados novamente com a liga mais valiosa existente. O guerreiro ficou maravilhado com a xícara porque ela não estava mais em pedaços, agora ela era uma xícara rica em detalhes, história e pequenas linhas de ouro segurando cada parte.

Autor desconhecido

segunda-feira, 16 de março de 2015

Minha melhor parte!

Na cesta de café, um dos presentes do Dia das mães, trazia uma xícara. Nela estava gravada a inscrição: “Mãe, o melhor de mim vem de você”. Então achei que o escrito seria mais apropriado se fosse dado para a minha mãe, porque dela sim herdei muitos bons adjetivos. Não me desvalorizando, no entanto, sempre acho os filhos bem melhores que sou. Acho que mãe que ama tem dessas coisas tantas nas ideias. Uma lente de aumento no coração para enxergar o belo nos filhos e uma trave nos olhos ofuscando suas eventuais pequenas falhas. Lembrando uma frase que escrevi há anos, imaginei-me entregando para cada filho, também uma xícara com dizeres. Só que com a convicção de que são merecedores dessa certeza nas palavras. Filho, você é minha melhor parte! Isto que penso: Deus dá à mãe a graça de ter em seu colo, o melhor de si. Quer presente melhor que isso?

Marília L Paixão, 26-8-2012

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Solidão

Quão melhor é o silêncio; a xícara de café, a mesa. Quão melhor é sentar-me sozinho como a solitária ave marinha que abre suas asas sobre a estaca. Deixem-me ficar sentado aqui para sempre com coisas nuas, esta xícara de café, esta faca, este garfo, coisas em si, eu mesmo sendo eu mesmo. Não venham preocupar-me com suas alusões a que é tempo de fechar a casa e partir. Eu daria de boa vontade todo o meu dinheiro para que vocês não me perturbassem, mas me deixassem ficar aqui sentado, para sempre, silencioso e só.

Trecho extraído de “Fonte: As Ondas de Virginia Woolf.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981”

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A xícara quebrada

      Há mais de vinte anos, uma grande amiga viajou para a Europa e me deu uma xícara de porcelana branca com um desenho e a frase You are the apple of my eyes. Eu guardei a xícara com todo o cuidado e ela continua intacta no armário da cozinha. Apesar das minhas inúmeras mudanças de casa (e até de estado!) ela continua sem um arranhão.
     Quando eu e o Sr. T começamos a comprar as coisas para a nossa casa, nos apaixonamos por lindas xícaras brancas que eram vendidas no supermercado Pão de Açúcar. Elas tinham estampas engraçadas com frases do tipo "Se quiser melhorar é só me chamar" ou "Seu mundo caiu? Vem para o meu que ele ainda está de pé". Nós adorávamos as xícaras e elas eram usadas todos os dias. Eu tinha uma superstição com elas, sempre acreditei que elas absorviam alguma coisa do nosso relacionamento e precisavam ficar inteiras para preservar nós dois. Eu já tinha a experiência da primeira xícara que guardei e a pessoa que me deu a xícara continua a minha melhor amiga até hoje.
     Lembro que quando contei como eu me sentia em relação as xícaras para o Sr. T, ele não riu ou achou que era alguma loucura, simplesmente disse que também tomaria muito cuidado com elas quando usasse ou na hora de lavar a louça.
     Na última segunda-feira, aproveitei o feriado para arrumar o armário da cozinha. Encontrei uma das xícaras com a borda lascada, uma rachadura enorme no corpo e a asa partida. Sentei na cadeira da cozinha olhando para a xícara e pensei há quanto tempo ela devia estar ali escondida. Misteriosamente, olhando para a xícara partida, pensei que agora fazia sentido que o nosso amor também tivesse se quebrado...

Ana, 18-11-2010
Texto originalmente publicado no blog: http://avidaeumfio.blogspot.com.br/

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Xícaras democráticas

Com a aproximação das eleições, minha querida amiga Beatriz Vicentini me enviou um delicioso texto, junto com algumas fotos, às quais eu juntei mais uma ...  
SEM IDEOLOGIA

E quem haverá de desmentir? Haverá algo mais democrático do que xícaras? Em tempos de eleição, em todas as campanhas, lá estão elas: com os candidatos da situação, da oposição, os alternativos, inclusive com aqueles que não conseguem marcar sequer um pontinho em pesquisas de opinião. Em algum momento são a companhia mais que provável  que alguém sempre coloca à frente dos candidatos, seja com café ou chá – o que é mais raro mas até ocorre. Para competir com elas, só mesmo o copo d'agua. Nos bares e padarias – onde os candidatos adoram dar uma paradinha - surgem nas versões mais simples, mesmo se o dono é amigo do político, de preferência brancas, às vezes um pouco encardidas pelo uso, mas sempre ali, passadas na água fervente, pra se tirar qualquer dúvida quanto à limpeza.

Até o próximo 6 de outubro - não importa quem vença, quem vá para o segundo turno –  uma coisa continuará sendo comum a todos os candidatos: em algum momento do dia, diante de eleitores, nas ruas, em reuniões com suas equipes, todos terão de si alguma xícara que lhes trará um momento de conforto com algum tipo de bebida que alguém terá a gentileza de lhes trazer. 
 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Uma xicrinha brasileira e uma história


Mini-xícara de café de porcelana branca, estampada com marreco, sem marca. A xícara mede  4cm x 4cm e o pires tem 8,7cm de diâmetro. Adornada com  friso verde.

A postagem desta xícara aqui tem um motivo especial. Quero colocar junto dela uma postagem feita por minha amiga mineira, Jussara Neves Rezende em seu blog Minas de Mim (http://minasdemim.blogspot.com), em 22 de agosto de 2013, com uma inspirada explicação. Vocês verão que a minha "xicrinha" é irmã das dela.
 

 

“Quando minha bela Ângela ainda era este bebê risonho da foto menor (abaixo), fiz-lhe uns versos após uma gostosa brincadeira de casinha. Nunca mais os retomei e agora os publico na esperança de que a ingenuidade alegre que os fez nascer compense a falta de maiores recursos técnicos que o ritmo mal e mal marcado.

 A verdade é que sempre que minha filha retorna à cidade em que estuda fico a imaginar maneiras de matar a saudade que passa a  fazer ciranda pela casa. Calharam-me hoje os versos como forma de a reter aqui.”



As xícaras miniaturas junto de uma xícara de café em tamanho normal. Toalhinha de bandeja (usada como toalha de mesa) e aparador de xícara bordados por mim.
Parede de um pequeno hall em que “moram” os patos

Nesta pequena estante, xícaras de café em tamanho normal

 

No armário, a pequenina coleção."

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sobre pratos e xícaras

   É interessante, ao acordarmos e nos posicionarmos à mesa para tomar o café da manhã, a disposição das louças. Colocamos sempre a quantidade exata para o número de pessoas que irão deliciar-se com o dejejum.
  Engraçado como temos alguma coisa a ver com simples objetos, seres inanimados, irracionais. Dispor xícaras e pratos à mesa, equivalentes à quantidade de membros da família, é como se nós estivéssemos numa escala proporcional às louças, como se a presença de um, dependesse da existência do outro.
  Pensando bem, o tempo de vida útil de pratos e xícaras, assim como o dos copos e talheres depende sim da presença de um habitante do lar.
  Lembro-me bem da manhã seguinte ao casamento do meu irmão mais velho. Minha mãe, como sempre, de pé, muito cedo, preparando as delícias matinais. Seis lugares a postos. Isso indicava que seis pessoas sentariam ali, seis xícaras seriam usadas, num café da manhã regado a muitas conversas, umas boas, outras que soavam como puxões de orelha, mas que seriam as nossas conversas. Coitada de minha mãe! Ela ainda não havia se acostumado com apenas cinco pessoas. Ainda não havia internalizado que o grupo familiar havia diminuído, que meu irmão deixou de ser família para virar parente que nos visitaria somente nos finais de semana, isso quando não fosse arrastado para a casa da sogra. Nesse dia, sorrimos.
   Passado algum tempo, algo fez com que minha mãe não tivesse vontade de preparar nosso café da manhã. Não sei nem se ela conseguiu dormir na noite anterior.
   Fui à cozinha, e, com os olhos marejados, preparei o café e dispus as louças. Eu já estava acostumada a ver só cinco xícaras na mesa. Mas nesse dia, com um aperto no coração, coloquei somente quatro.
   Depois de muita insistência minha e de meus irmãos mais novos, minha mãe saiu do quarto para tomar café. Ela não conseguiu quebrar o jejum. Faltava uma xícara. Faltava alguém. Alguém que não iria nos visitar nos fins de semana para colocarmos uma louça a mais na mesa. Faltava o meu pai.
   Desde aquele dia, sentamo-nos à mesa, mas há um vazio. As conversas? Talvez elas voltem. A xícara? Talvez também seja colocada, talvez quebre, mas com a certeza de que poderá ser substituída. Mas, meu pai, insubstituível, esse deixará um vazio, que nunca poderá ser preenchido.
 
Priscilla Robertha de Andrade, 2011 - em memória de Francisco Luís da Silva.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Crônicas Gris

Título: Crônicas Gris
Autora: Ana Paula Amaral
Editora: Livronovo
Lançamento: 2013

Este livro versa sobre encontrar beleza para além dos padrões estabelecidos. Seja no cabelo feminino, ou na ausência dele nas cores que conferem personalidade aos fios. Nas mãos senis, manchadas de viver, nas mãos que mergulhadas em água banham o filho. Encontrar beleza nas pessoas anônimas que edificam os caminhos por onde passamos ou na maternidade gerada no ventre ou a maternidade que faz crescer o coração. Em crônicas leves, divertidas, ora que emocionam, o cotidiano vai se descortinando com toda a sua força e beleza (Sinopse encontrada no site da Livraria da Travessa).

Só para aguçar a curiosidade de muitos, transcrevo aqui um pequeno e delicioso trecho de uma das crônicas:
"Pego no armário da cozinha a xícara emborcada sobre o pires... Dispenso o pires e acomodo a xícara ao lado do computador. Vou falar com meus amigos das redes sociais, bebericando meu café... Mais de trezentos amigos é o que aparece marcado ali na tela... Tantos amigos e uma só xícara de café... Tantos compartilhamentos, mas nunca várias xícaras emborcadas, esperando o som do riso real, o brilho verdadeiro dos olhos, sejam eles tristes ou alegres."

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Xícaras de chá e momentos especiais

[...] Antes de ir para Caracas, eu morava em três lugares. Tinha um apartamento em São Paulo, onde Silvio trabalhava. Uma casa em Niterói, a minha residência oficial, de dois andares e guardiã do espólio de meus pais, em especial do de minha mãe e sua compulsão por colecionar louças. E um apartamentinho no Rio, a Cápsula, quase um acidente de percurso, pois ficava pertinho de onde eu trabalhava e que decidi comprar como um efeito colateral da violência urbana.

Quando viajei, o problema não foram os imóveis, que estão alugados, a exceção da Cápsula, que é meu reduto quando estou no Rio. O problema foram os móveis e utensílios. Três casas totalmente equipadas significam três de tudo, ou pior, criando-se uma progressão geométrica, três vezes muitas coisas. Por exemplo, tenho guardados na Cápsula mais de quinze pirex sem nenhuma perspectiva de uso. Grandes, pequenos, ovais, quadrados, redondos, velhinhos, novinhos... Podia abrir um restaurante e um bar só com o estoque atual de copos, pratos e bandejas. De talheres sou meio fraquinha, são apenas dois faqueiros. E se pensam que é fácil vender tais objetos, que venham me ajudar, pois como comerciante, sou uma boa professora de inglês.

Na semana passada, enquanto pensava o que dar de presente a uma de minhas primas, tive a ideia de presenteá-la com parte do acervo de louças de minha mãe. Ninguém melhor do que ela, que adora chá, para receber as chávenas japonesas de porcelana casca de ovo. Seria um carinho meu e da Tia Thereza, por toda a ajuda que ela tem me dado com documentos e cartórios.
Comprei uma caixa bem bonita e papel seda e um laço repolhudo. Depois retirei as xícaras do armário e decidi lavá-las antes de preparar o presente, pois estavam cheias da poeira dos tempos (expressão tantas vezes usada por mamãe).
Enquanto as ia lavando, entre muita espuma, água corrente (que me perdoem os ambientalistas) e um enorme cuidado para não quebrá-las, tentei lembrar quantas vezes, ao longo de toda a minha vida, nós havíamos usado as chávenas. Por mais que tentasse, só conseguia pensar em um ou dois momentos. Por que tão poucas vezes? Mamãe adorava as xícaras e não era raro tomarmos chá. Então, por que tão poucas vezes?


As xícaras eram, são como joias. Bonitas, delicadas e cada vez mais raras. E joias são usadas em momentos especiais.

As xícaras são de porcelana muito fina e qualquer gesto brusco pode quebrá-las.
Assim, na espera de um momento especial e por cuidado para não perdê-las, o que se perdeu foi o prazer de se tomar chá em chávenas casca de ovo, que, frescuras à parte, faz o sabor da bebida ficar ainda melhor.

Lavava as xícaras e lembrava de inúmeros momentos simples e cotidianos em que tomamos chá conversando muito e rindo muito e brincando muito. Momentos perfeitos, como fina porcelana. Momentos perfeitos para finas porcelanas, mas elas não foram usadas. Permaneceram na arca, em sua potencialidade de beleza e prazer. Havia que preservá-las e, por isso, foram subutilizadas. Para mantê-las intactas, foi necessário escondê-las e talvez, depois de algum tempo, até mesmo esquecê-las lá no fundo da arca de jacarandá, a arca das louças especiais, para os momentos especiais.

Parto hoje para Caracas. Dei a arca para uma amiga e as xícaras para minha prima. Junto à caixa bonita e o papel seda e o laço repolhudo, coloquei um cartão com a seguinte mensagem:

       Querida Anna,
       Estas xícaras são para ser usadas cotidianamente. São as do dia a dia, para você tomar chá com a família. São para os momentos da vida. Não tenha o menor pudor de usá-las. E se alguma delas se quebrar, é porque já era hora de ser quebrada. Nada mais.
joias não usadas, são pedra bruta. Livros não lidos, puro silêncio ...

       Obrigada por tudo.
       Beijos
       Pat


  Não sei ... Pode ser imaginação ... Mas quando entreguei o presente, ouvi um tilintar alegre dentro da caixa, como delicados brindes, como gargalhadas de agradecimento.

Patrícia Blower, abril de 2009